{"id":17722,"date":"2015-08-22T15:09:41","date_gmt":"2015-08-22T18:09:41","guid":{"rendered":"http:\/\/namiradalei.com.br\/barradobugres\/?p=17722"},"modified":"2015-08-22T15:09:41","modified_gmt":"2015-08-22T18:09:41","slug":"pioneira-em-mt-ala-lgbt-completa-quatro-anos-e-detentos-lembram-agressoes-exploracao-sexual-e-ate-jejum-forcado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/namiradalei.com.br\/barradobugres\/pioneira-em-mt-ala-lgbt-completa-quatro-anos-e-detentos-lembram-agressoes-exploracao-sexual-e-ate-jejum-forcado\/","title":{"rendered":"Pioneira em MT, ala LGBT completa quatro anos e detentos lembram agress\u00f5es, explora\u00e7\u00e3o sexual e at\u00e9 jejum for\u00e7ado"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-17723\" src=\"http:\/\/namiradalei.com.br\/barradobugres\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/nn1-650x433.jpg\" alt=\"nn\" width=\"400\" height=\"267\" srcset=\"https:\/\/namiradalei.com.br\/barradobugres\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/nn1-650x433.jpg 650w, https:\/\/namiradalei.com.br\/barradobugres\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/nn1-150x99.jpg 150w, https:\/\/namiradalei.com.br\/barradobugres\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/nn1.jpg 800w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/>Os longos cabelos, a sombra e o delineador nos olhos, e a base nas unhas revelam uma conquista recente. As camisetas amarelas, feitas para uniformizar, j\u00e1 n\u00e3o conseguem for\u00e7ar uma identidade errada: acinturadas e com gola mais baixa, marcam a feminilidade da vestimenta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Duda Marques e Sandy s\u00e3o travestis do Centro de Ressocializa\u00e7\u00e3o de Cuiab\u00e1, o antigo \u2018Carumb\u00e9\u2019, e assim como diversas outras detentas, sentiram na pele o que \u00e9 ser obrigada a adequar-se a uma identidade de g\u00eanero que n\u00e3o \u00e9 a sua para poder sobreviver na cadeia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Reclusa h\u00e1 quatro anos e quatro meses, Sandy chegou a viver na ala evang\u00e9lica do Centro de Ressocializa\u00e7\u00e3o, e ali precisava seguir as regras das igrejas: \u201cTinha que dobrar o joelho e ficar de uma a quatro horas orando\u2026 tinha que fazer vig\u00edlia \u00e0 noite, e jejum tamb\u00e9m. Teve um dia que eu fiz jejum das sete da manh\u00e3 \u00e0s tr\u00eas da tarde. E eu pensava: jejum pra qu\u00ea?\u201d.<\/p>\n<p>E ela n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica que tem relatos do passado na ala. Rael da Silva Cisi, homossexual, est\u00e1 h\u00e1 cinco anos no Centro e conta que seu principal problema era que os evang\u00e9licos estavam o tempo todo tentando tirar dele um \u201cesp\u00edrito maligno\u201d: \u201cEles passavam dias e noites dizendo que precisavam salvar a minha alma, e me isolavam. Eu tinha que comer, dormir e tomar banho separado, pois eles diziam que ficar junto com os outros homens seria uma tenta\u00e7\u00e3o. Me poupe, n\u00e9? O que eles t\u00eam eu tamb\u00e9m tenho\u201d.<\/p>\n<p>Em junho de 2011 foi criada a ala arco-\u00edris no Centro de Ressocializa\u00e7\u00e3o. O projeto foi pioneiro no estado e a unidade ainda \u00e9 a \u00fanica de Mato Grosso que oferece um local espec\u00edfico para acomoda\u00e7\u00e3o de pessoas que t\u00eam identidade de g\u00eanero diferente da determinada biologicamente (travestis e transexuais) ou orienta\u00e7\u00e3o sexual homossexual ou bissexual. Ali, segundo informa\u00e7\u00f5es da coordena\u00e7\u00e3o, eles ficam em conteiners com quatro internos em cada um (a equipe do <strong>Olhar Direto\/Conceito<\/strong> n\u00e3o foi autorizada a entrar na ala). Nos momentos de trabalho, no entanto, n\u00e3o h\u00e1 distin\u00e7\u00e3o: internos da ala arco-\u00edris e das outras trabalham juntos.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da ala arco-\u00edris, existe no Centro de Ressocializa\u00e7\u00e3o a ala evang\u00e9lica e a ala chamada de \u201cconv\u00edvio\u201d (onde ficam os detentos que preferem n\u00e3o estar nas outras). Atualmente, na ala evang\u00e9lica existem representantes das igrejas Deus \u00e9 amor, Assembleia de Deus e Caminho para Todos. Cada igreja possui seus pastores e obreiros, todos reeducandos, e quem mora ali tem que seguir as regras determinadas por eles \u2013 por isso Sandy, Rael e Duda tinham de orar, vigiar e jejuar.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 por ser uma \u00e1rea religiosa que a viol\u00eancia era inexistente. Duda lembra que os ass\u00e9dios eram frequentes: \u201cOlhares\u2026 \u00e0s vezes \u2018bulinavam\u2019 a gente \u00e0 noite, porque a gente \u00e9 obrigado a dormir do lado de outros homens, n\u00e9? E alguns est\u00e3o h\u00e1 muito tempo sem visita\u2026 muitos mandavam bilhetinhos\u201d. Sandy tamb\u00e9m se sentia amea\u00e7ada: \u201cEles mandavam bilhete falando da minha boca, da minha bunda\u2026 e se eu entregava o bilhete para o pastor ele me dizia que eu estava mentindo. A\u00ed eu entreguei na coordena\u00e7\u00e3o do pres\u00eddio e disse que se acontecesse alguma coisa comigo eles j\u00e1 estavam sabendo\u201d.<\/p>\n<p>A op\u00e7\u00e3o de sair da ala evang\u00e9lica existia, mas segundo as reeducandas, era como trocar o mal pelo pior. No \u2018conv\u00edvio,\u2019 os homossexuais e as travestis n\u00e3o tinham direitos: \u201cA gente n\u00e3o pode dar opini\u00e3o de nada, n\u00e3o somos dignos de falar alguma coisa\u201d, contou Rael. Para Sandy, estar ali era uma senten\u00e7a: \u201cVoc\u00ea est\u00e1 ali para ser escrava, seja sexual, seja de trabalho mesmo\u201d.<\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o da ala arco-\u00edris veio como consequ\u00eancia de todas essas reclama\u00e7\u00f5es. Cl\u00f3vis Arantes, coordenador da Organiza\u00e7\u00e3o N\u00e3o Governamental Livre Mente e respons\u00e1vel por acompanhar este projeto, conta que foram as pessoas que trabalhavam no Centro como psic\u00f3logos e assistentes sociais que identificaram o problema: \u201cEles traziam den\u00fancias de n\u00e3o cumprimento dos direitos humanos. Por exemplo, travestis eram feitas de escravas sexuais, tinham que trocar sexo por favores, ou por trabalho\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A busca por mais direito e dignidade na reclus\u00e3o vinha dos recuperandos e das recuperandas, que aos poucos tiveram seus pedidos atendidos por meio destes profissionais e do trabalho da Livre Mente. \u201cNo come\u00e7o as pessoas n\u00e3o entendiam muito o porqu\u00ea de reinvindicar um espa\u00e7o exclusivo [tanto os internos heterossexuis e cisg\u00eaneros (pessoa que se reconhece como pertencendo ao g\u00eanero que foi designada quando nasceu)\u00a0quanto os agentes prisionais], mas essa consci\u00eancia foi se construindo\u201d, explica Cl\u00f3vis. O resultado, ap\u00f3s quatro anos desde a ideia inicial, foi uma diminui\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia e uma \u201ccria\u00e7\u00e3o internamente de um espa\u00e7o de respeito aos LGBT\u201d.<\/p>\n<p>Tudo isso, no entanto, \u00e9 feito no acordo verbal. O projeto ainda n\u00e3o foi publicado, e n\u00e3o existe legalmente, o que dificulta a implanta\u00e7\u00e3o deste sistema em outros centros de ressocializa\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m deixa os direitos adquiridos na corda bamba: \u201cHoje n\u00f3s temos uma coordena\u00e7\u00e3o que \u00e9 favor\u00e1vel, que nos ajuda. Mas n\u00e3o sabemos o que vai acontecer amanh\u00e3, se ela for trocada, a pr\u00f3xima pode n\u00e3o manter a ala, porque n\u00e3o \u00e9 lei\u201d, explica Cl\u00f3vis.<\/p>\n<p>Winkler Teles, diretor do centro, entende a import\u00e2ncia da ala como forma de garantir os direitos: \u201cA ala \u00e9 separada tamb\u00e9m para manter a integridade f\u00edsica e moral dos internos\u201d. No entanto, eles devem seguir certas regras para estar ali: \u201cPara ficar na ala \u00e9 preciso estudar ou trabalhar e ter bom comportamento\u201d, explica.<\/p>\n<p>E os internos concordam com a pr\u00e1tica. Sandy conta que quando um homossexual ou uma travesti chega na ala \u201carrumando confus\u00e3o\u201d, o castigo \u00e9 descer pra ala evang\u00e9lica ou pro conv\u00edvio por cerca de cinco dias. E ningu\u00e9m quer ficar ali. Assim como em outros centros, s\u00e3o cortados os cabelos das travestis, e elas s\u00e3o obrigadas a usar roupas masculinas e a serem chamadas pelo nome de batismo.<\/p>\n<p>Este foi o caso, por exemplo, de Michely. Ela teve os cabelos raspados no presidio Pascoal Ramos, e tamb\u00e9m chegou a viver na ala evang\u00e9lica e no \u2018conv\u00edvio\u2019 do Centro de Ressocializa\u00e7\u00e3o: \u201cEu prefiro o conv\u00edvio. L\u00e1 a gente n\u00e3o pode ficar sozinha com outros homens, mas pelo menos \u00e9 diferente da evang\u00e9lica. Na evang\u00e9lica eu tinha que orar, e se n\u00e3o orasse ficava sem comer\u201d, conta. \u201cE quando eu tentava mandar carta pra coordena\u00e7\u00e3o, o pastor tinha que ler antes, e nunca entregava\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Morando na arco-\u00edris, os internos e internas t\u00eam que trabalhar. Rael trabalha fazendo cuia de terer\u00e9, Sandy faz artesanato, trabalha na marcenaria, e faz limpeza \u201cpra n\u00e3o enjoar\u201d, e Duda tamb\u00e9m trabalha na marcenaria e na limpeza. O trabalho no Centro n\u00e3o tem remunera\u00e7\u00e3o, funciona no esquema de remiss\u00e3o: para cada dia de trabalho, s\u00e3o redimidos tr\u00eas dias de pena. A n\u00e3o ser que o trabalho seja artesanal e a fam\u00edlia do interno\/a financie os materiais. Nestes casos, o lucro fica para a fam\u00edlia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A m\u00e3e de Sandy, por exemplo, mora em Goi\u00e2nia, mas sempre que pode vem visitar a filha, trazendo presentes e roupas. \u201cMuitas vezes ainda n\u00e3o deixam ela entrar com roupa feminina e maquiagem. Quando \u00e9 dia de trazer, por exemplo, duas cuecas, eu pe\u00e7o duas calcinhas. Mas j\u00e1 teve vez do pessoal l\u00e1 na frente fazer gra\u00e7a, esticar a calcinha na frente de todo mundo\u201d, conta a interna.<\/p>\n<p>Maquiagem e esmalte tamb\u00e9m s\u00e3o um problema. O que as travestis e transexuais conseguem s\u00e3o presentes das agentes prisionais: \u201cAqueles que j\u00e1 est\u00e3o acabando, sabe? Que elas n\u00e3o querem mais\u201d, conta Duda. Para ela, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 um pouco mais complicada porque n\u00e3o recebe visitas: \u201cMinha visita est\u00e1 aqui dentro\u201d.<\/p>\n<p>Duda \u00e9 casada com Emerson Marques h\u00e1 dois meses. Seu casamento foi o primeiro homoafetivo do Brasil realizado dentro de uma penitenci\u00e1ria, e teve presen\u00e7a da imprensa e de representantes o governo. \u00c9 por causa de seu marido, tamb\u00e9m, que Duda n\u00e3o gostaria de estar em uma penitenci\u00e1ria feminina. (No Rio de Janeiro, foi aprovado em maio que as travestis e transexuais possam escolher ir para a ala feminina da penitenci\u00e1ria).<\/p>\n<p>Sandy tamb\u00e9m n\u00e3o quer: \u201cDeus me livre de mulher. Mulher menstrua, tem TPM, \u00e9 chata demais. Prefiro ficar aqui com os guri\u201d, afirma. Rael complementa que nas penitenci\u00e1rias femininas o ass\u00e9dio \u00e9 muito grande: \u201cElas est\u00e3o h\u00e1 muito tempo sem homem, podem atacar as travestis. Eu mesmo esses tempos fui fazer uma pe\u00e7a de teatro numa pris\u00e3o feminina e as mulheres ficavam me chamando o tempo todo\u201d, conta.<\/p>\n<p>Poder transferir travestis e transexuais para penitenci\u00e1rias femininas realmente n\u00e3o faz parte dos planos atuais da Livre Mente. A ideia \u00e9 expandir a conquista da ala arco-\u00edris para outras penitenci\u00e1rias do estado, j\u00e1 que com a burocracia fica dif\u00edcil transferir internos do interior para a capital e, acima de tudo, conseguir formalizar o espa\u00e7o e documentar o projeto. \u201cAs pessoas tem que entender que isso n\u00e3o \u00e9 um benef\u00edcio a mais aos LGBT. Eles ainda t\u00eam que trabalhar, ter bom comportamento e seguir todas as regras do centro primeiro. \u00c9 apenas um espa\u00e7o separado para garantir a integridade\u201d, explica Cl\u00f3vis Arantes.<\/p>\n<p>O objetivo \u00e9, portanto, manter a penaliza\u00e7\u00e3o dos internos pelos crimes que cometeram, mas evitar que eles sejam penalizados duplamente. Quando uma travesti chega a um centro de ressocializa\u00e7\u00e3o, ela \u00e9 penalizada por seu crime e tamb\u00e9m por sua identidade de g\u00eanero. Cortar os cabelos de Sandy, Duda, Michely, Rackelly e tantas outras, podia ser apenas um ato mec\u00e2nico para agentes e outros internos. Mas era como se tirassem delas o que elas t\u00eam de mais precioso, ou o pouco que ainda lhes resta: sua identidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #999999;\">Olhardireto<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os longos cabelos, a sombra e o delineador nos olhos, e a base nas unhas revelam uma conquista recente. As<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":17723,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-17722","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-variedades"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/namiradalei.com.br\/barradobugres\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17722","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/namiradalei.com.br\/barradobugres\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/namiradalei.com.br\/barradobugres\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/namiradalei.com.br\/barradobugres\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/namiradalei.com.br\/barradobugres\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17722"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/namiradalei.com.br\/barradobugres\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17722\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17724,"href":"https:\/\/namiradalei.com.br\/barradobugres\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17722\/revisions\/17724"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/namiradalei.com.br\/barradobugres\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17723"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/namiradalei.com.br\/barradobugres\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17722"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/namiradalei.com.br\/barradobugres\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17722"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/namiradalei.com.br\/barradobugres\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17722"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}