{"id":58212,"date":"2026-08-21T05:36:55","date_gmt":"2026-08-21T13:36:55","guid":{"rendered":"https:\/\/namiradalei.com.br\/barradobugres\/?p=58212"},"modified":"2026-08-21T05:36:55","modified_gmt":"2026-08-21T13:36:55","slug":"o-ponto-cego-do-marketing-politico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/namiradalei.com.br\/barradobugres\/o-ponto-cego-do-marketing-politico\/","title":{"rendered":"O PONTO CEGO DO MARKETING POL\u00cdTICO"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-58213 size-full\" src=\"https:\/\/namiradalei.com.br\/barradobugres\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/WhatsApp-Image-2026-08-21-at-10.32.14-e1787319382904.jpeg\" alt=\"\" width=\"1000\" height=\"1500\" \/>O eleitor evolutivo<\/p>\n<p><em><strong>Por Paulo Laurentino<\/strong><\/em><\/p>\n<p>E se o marketing estiver ficando cada vez melhor em compreender um eleitor que j\u00e1 est\u00e1 mudando?<\/p>\n<p>H\u00e1 algo curioso acontecendo nas campanhas eleitorais modernas.<br \/>\nNunca houve tantas ferramentas para conhecer o eleitor.<br \/>\nPesquisas quantitativas medem inten\u00e7\u00e3o de voto, aprova\u00e7\u00e3o, rejei\u00e7\u00e3o e prioridades. Pesquisas qualitativas procuram sentimentos e argumentos. Redes sociais oferecem um oceano de manifesta\u00e7\u00f5es espont\u00e2neas. Algoritmos identificam padr\u00f5es. Intelig\u00eancia artificial processa volumes gigantescos de informa\u00e7\u00e3o. Monitoramentos acompanham tend\u00eancias praticamente em tempo real.<br \/>\nO marketing pol\u00edtico tornou-se uma extraordin\u00e1ria m\u00e1quina de observa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMas talvez exista um ponto cego justamente no centro dessa m\u00e1quina:<br \/>\no eleitor observado tamb\u00e9m observa.<br \/>\nE aprende.<br \/>\nA vari\u00e1vel que talvez esteja faltando<br \/>\nGrande parte do marketing trabalha, necessariamente, sobre manifesta\u00e7\u00f5es observ\u00e1veis.<br \/>\nO eleitor responde.<br \/>\nO eleitor comenta.<br \/>\nO eleitor compartilha.<br \/>\nO eleitor rejeita.<br \/>\nO eleitor declara inten\u00e7\u00e3o de voto.<br \/>\nO eleitor participa de um grupo focal.<br \/>\nEsses sinais s\u00e3o capturados, organizados e transformados em estrat\u00e9gia.<br \/>\nNada h\u00e1 de errado nisso.<br \/>\nO problema come\u00e7a quando esquecemos uma coisa elementar:<br \/>\nseres humanos n\u00e3o s\u00e3o objetos est\u00e1ticos.<br \/>\nQuando submetemos repetidamente uma pessoa a determinado est\u00edmulo, ela n\u00e3o permanece necessariamente igual enquanto aperfei\u00e7oamos o est\u00edmulo.<br \/>\nEla tamb\u00e9m acumula experi\u00eancia.<br \/>\nAprende padr\u00f5es.<br \/>\nCompara promessas.<br \/>\nReconhece exageros.<br \/>\nPercebe encena\u00e7\u00f5es.<br \/>\nIdentifica discursos excessivamente calculados.<br \/>\nE pode come\u00e7ar a reconhecer a pr\u00f3pria tentativa de persuas\u00e3o.<br \/>\nIsso n\u00e3o significa que o eleitor tenha se tornado imune \u00e0 propaganda. Evidentemente n\u00e3o.<br \/>\nSignifica algo muito mais desconfort\u00e1vel:<br \/>\no alvo est\u00e1 aprendendo com o atirador.<br \/>\nA ci\u00eancia da persuas\u00e3o conhece parte desse fen\u00f4meno h\u00e1 d\u00e9cadas. O chamado Persuasion Knowledge Model, proposto por Marian Friestad e Peter Wright, descreve como pessoas desenvolvem conhecimento sobre objetivos e t\u00e1ticas utilizadas para persuadi-las e passam a utilizar esse conhecimento ao lidar com novas tentativas de influ\u00eancia.<br \/>\nOu seja:<br \/>\nenquanto o marketing aprende sobre n\u00f3s, n\u00f3s tamb\u00e9m aprendemos sobre o marketing.<br \/>\nTalvez ainda n\u00e3o tenhamos considerado suficientemente as consequ\u00eancias pol\u00edticas dessa corrida.<br \/>\nProponho chamar isso de Princ\u00edpio do Eleitor Evolutivo<br \/>\nA ideia \u00e9 simples:<br \/>\nToda t\u00e9cnica de persuas\u00e3o aplicada repetidamente sobre uma popula\u00e7\u00e3o participa tamb\u00e9m do aprendizado dessa popula\u00e7\u00e3o sobre a pr\u00f3pria t\u00e9cnica.<br \/>\nN\u00e3o apresento isso como uma nova lei cient\u00edfica.<br \/>\nApresento como uma hip\u00f3tese que merece ser colocada sobre a mesa.<br \/>\nPorque ela produz uma consequ\u00eancia inquietante.<br \/>\nSe o marketing evolui, mas o eleitor tamb\u00e9m evolui, modelos constru\u00eddos a partir do comportamento passado possuem necessariamente um advers\u00e1rio silencioso:<br \/>\na transforma\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio objeto que procuram prever.<br \/>\nA pergunta deixa ent\u00e3o de ser apenas:<br \/>\n\u201cQual mensagem funciona?\u201d<br \/>\nE passa a ser:<br \/>\n\u201cSobre qual vers\u00e3o do eleitor descobrimos que essa mensagem funciona?\u201d<br \/>\nParece uma diferen\u00e7a pequena.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9.<br \/>\nO eleitor pode aprender sem saber que aprendeu<br \/>\nAqui talvez esteja a parte mais interessante.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio conhecer marketing para reconhecer marketing.<br \/>\nUma pessoa pode nunca ter ouvido falar em framing, segmenta\u00e7\u00e3o comportamental, engenharia de aten\u00e7\u00e3o, propaganda nativa ou reat\u00e2ncia psicol\u00f3gica.<br \/>\nMas pode assistir a uma pe\u00e7a pol\u00edtica e pensar:<br \/>\n\u201cEst\u00e3o querendo que eu sinta isso.\u201d<br \/>\nEssa pequena frase representa uma mudan\u00e7a extraordin\u00e1ria na rela\u00e7\u00e3o entre emissor e receptor.<br \/>\nO receptor deixou de enxergar apenas a mensagem.<br \/>\nCome\u00e7ou a enxergar a inten\u00e7\u00e3o existente atr\u00e1s dela.<br \/>\nA literatura sobre resist\u00eancia \u00e0 persuas\u00e3o mostra que pessoas podem reagir a tentativas persuasivas por diferentes raz\u00f5es, inclusive preocupa\u00e7\u00e3o com manipula\u00e7\u00e3o ou amea\u00e7a \u00e0 pr\u00f3pria liberdade de escolha. Uma meta-an\u00e1lise recente encontrou associa\u00e7\u00e3o entre linguagem percebida como mais amea\u00e7adora \u00e0 liberdade, maior reat\u00e2ncia e piores resultados persuasivos.<br \/>\nIsso deveria interessar profundamente a qualquer estrategista pol\u00edtico.<br \/>\nPorque talvez exista uma diferen\u00e7a gigantesca entre:<br \/>\nreceber uma mensagem<br \/>\ne<br \/>\nperceber que algu\u00e9m construiu aquela mensagem especificamente para produzir determinada rea\u00e7\u00e3o em voc\u00ea.<br \/>\nA desades\u00e3o silenciosa<br \/>\nExiste ainda outro fen\u00f4meno que proponho observar.<br \/>\nChamarei de desades\u00e3o silenciosa.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 rejei\u00e7\u00e3o.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 necessariamente mudan\u00e7a de voto.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 rompimento ideol\u00f3gico.<br \/>\nN\u00e3o aparece obrigatoriamente numa manifesta\u00e7\u00e3o p\u00fablica.<br \/>\n\u00c9 algo anterior.<br \/>\n\u00c9 o intervalo entre continuar repetindo uma cren\u00e7a e come\u00e7ar silenciosamente a deixar de acreditar nela.<br \/>\nO eleitor ainda responde como respondia.<br \/>\nAinda pertence ao mesmo grupo.<br \/>\nAinda utiliza o mesmo vocabul\u00e1rio.<br \/>\nTalvez declare inclusive a mesma inten\u00e7\u00e3o eleitoral.<br \/>\nMas pequenas incompatibilidades come\u00e7aram a se acumular.<br \/>\nUma promessa que n\u00e3o aconteceu.<br \/>\nUma contradi\u00e7\u00e3o percebida.<br \/>\nUma narrativa incompat\u00edvel com sua experi\u00eancia cotidiana.<br \/>\nUma explica\u00e7\u00e3o que antes convencia e agora exige esfor\u00e7o para continuar convencendo.<br \/>\nNada disso necessariamente produz uma mudan\u00e7a instant\u00e2nea de opini\u00e3o.<br \/>\nProduz eros\u00e3o.<br \/>\nE eros\u00e3o n\u00e3o faz barulho.<br \/>\nEsse \u00e9 um problema particularmente interessante para pesquisas baseadas em declara\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEstudos sobre medidas impl\u00edcitas e comportamento eleitoral mostram um quadro bem mais cauteloso do que qualquer fantasia de \u201cler a mente\u201d: medidas impl\u00edcitas \u00e0s vezes acrescentam capacidade preditiva, mas frequentemente melhoram pouco ou nada a precis\u00e3o geral das previs\u00f5es baseadas em medidas expl\u00edcitas. Ou seja, existe informa\u00e7\u00e3o al\u00e9m do autorrelato, mas captur\u00e1-la continua sendo dif\u00edcil.<br \/>\nE justamente por isso surge uma pergunta inc\u00f4moda:<br \/>\ncomo medir uma mudan\u00e7a que talvez nem o pr\u00f3prio eleitor tenha organizado conscientemente?<br \/>\nO perigo da precis\u00e3o<br \/>\nAqui aparece um paradoxo.<br \/>\nQuanto mais sofisticadas ficam nossas ferramentas, maior pode ser nossa confian\u00e7a nelas.<br \/>\nE confian\u00e7a excessiva numa ferramenta produz um risco antigo:<br \/>\nconfundir aquilo que conseguimos medir com aquilo que existe.<br \/>\nUma pesquisa pode estar metodologicamente correta.<br \/>\nUm monitoramento pode estar correto.<br \/>\nUma an\u00e1lise de redes pode estar correta.<br \/>\nUm grupo focal pode estar correto.<br \/>\nE ainda assim existir alguma coisa importante acontecendo fora da resolu\u00e7\u00e3o desses instrumentos.<br \/>\nN\u00e3o porque sejam ruins.<br \/>\nPorque nenhuma janela \u00e9 a paisagem inteira.<br \/>\nTalvez o grande desafio das campanhas contempor\u00e2neas n\u00e3o seja simplesmente coletar mais dados.<br \/>\nTalvez seja descobrir quais transforma\u00e7\u00f5es humanas ainda n\u00e3o aprenderam a transformar em dados.<br \/>\nUm recado aos pol\u00edticos<br \/>\nO candidato tamb\u00e9m deveria pensar nisso.<br \/>\nPorque terceirizar intelig\u00eancia estrat\u00e9gica n\u00e3o significa terceirizar percep\u00e7\u00e3o.<br \/>\nQuando uma pesquisa chega \u00e0 mesa dizendo que determinada parcela do eleitorado apoia sua candidatura, talvez exista uma pergunta adicional:<br \/>\nqual \u00e9 a qualidade desse apoio?<br \/>\nConvic\u00e7\u00e3o?<br \/>\nIdentidade?<br \/>\nH\u00e1bito?<br \/>\nFalta de alternativa?<br \/>\nEntusiasmo?<br \/>\nOu apenas uma ades\u00e3o declarada cuja estrutura interna come\u00e7ou a apresentar rachaduras?<br \/>\nUma porcentagem pode parecer s\u00f3lida no PowerPoint.<br \/>\nPessoas n\u00e3o s\u00e3o porcentagens.<br \/>\nE um recado aos eleitores<br \/>\nExiste tamb\u00e9m responsabilidade do outro lado.<br \/>\nPerceber t\u00e9cnicas de persuas\u00e3o n\u00e3o nos torna automaticamente l\u00facidos.<br \/>\nPodemos reconhecer a manipula\u00e7\u00e3o do advers\u00e1rio e permanecer completamente cegos \u00e0 manipula\u00e7\u00e3o praticada pelo nosso pr\u00f3prio grupo.<br \/>\nPodemos rir da propaganda que tenta convencer \u201cos outros\u201d enquanto somos conduzidos por outra narrativa igualmente calculada.<br \/>\nPortanto, o eleitor evolutivo n\u00e3o \u00e9 necessariamente o eleitor que \u201cdescobriu a verdade\u201d.<br \/>\n\u00c9 simplesmente aquele que desenvolveu uma pergunta adicional:<br \/>\n\u201cPor que querem que eu pense isso?\u201d<br \/>\nE depois precisa ter coragem para fazer a pergunta mais dif\u00edcil:<br \/>\n\u201cEu faria a mesma cr\u00edtica se essa mensagem viesse do meu lado?\u201d<br \/>\nTalvez estejamos diante de uma corrida<br \/>\nMarketing pol\u00edtico e eleitor est\u00e3o aprendendo simultaneamente.<br \/>\nUm aprende novas formas de persuadir.<br \/>\nO outro acumula experi\u00eancia em ser persuadido.<br \/>\nUm aperfei\u00e7oa a narrativa.<br \/>\nO outro aprende a reconhecer narrativas.<br \/>\nUm observa comportamentos.<br \/>\nO outro come\u00e7a a observar quem est\u00e1 tentando provocar esses comportamentos.<br \/>\nIsso n\u00e3o decreta o fim do marketing.<br \/>\nMuito pelo contr\u00e1rio.<br \/>\nTalvez determine o nascimento de um marketing muito mais inteligente.<br \/>\nMenos interessado em tratar pessoas como mecanismos previs\u00edveis.<br \/>\nMais interessado em compreender seres humanos que aprendem, mudam, amadurecem, contradizem-se e desenvolvem resist\u00eancia.<br \/>\nPorque existe uma vari\u00e1vel que nenhum estrategista deveria esquecer:<br \/>\nenquanto voc\u00ea estuda o eleitor de amanh\u00e3 utilizando os dados do eleitor de ontem, o eleitor de amanh\u00e3 est\u00e1 sendo criado.<br \/>\nE talvez esteja sendo criado, em parte, pela exposi\u00e7\u00e3o \u00e0s pr\u00f3prias t\u00e9cnicas que voc\u00ea pretende utilizar novamente sobre ele.<br \/>\nPor isso deixo tr\u00eas perguntas.<br \/>\nA primeira ao eleitor:<br \/>\nquanto das suas convic\u00e7\u00f5es nasceu de reflex\u00e3o \u2014 e quanto foi cuidadosamente colocado diante de voc\u00ea para parecer uma conclus\u00e3o sua?<br \/>\nA segunda ao pol\u00edtico:<br \/>\nsua campanha est\u00e1 tentando compreender o eleitor que existe \u2014 ou apenas tentando convencer aquele que suas pesquisas conseguem enxergar?<br \/>\nE a terceira deixo aos grandes profissionais do marketing pol\u00edtico:<br \/>\nse voc\u00eas passaram d\u00e9cadas aprendendo a ler a mente do eleitor, em que momento come\u00e7aram a medir o quanto o eleitor aprendeu a ler voc\u00eas?<br \/>\nTalvez essa vari\u00e1vel j\u00e1 esteja nas elei\u00e7\u00f5es.<br \/>\nTalvez ainda seja pequena.<br \/>\nTalvez seja enorme.<br \/>\nN\u00e3o sabemos.<br \/>\nE esse \u00e9 precisamente o problema.<br \/>\nPorque aquilo que ainda n\u00e3o aprendemos a medir n\u00e3o deixa de existir apenas porque n\u00e3o aparece no relat\u00f3rio.<\/p>\n<p><em><strong>Paulo Laurentino \u00e9 Artista Pl\u00e1stico e Publicit\u00e1rio<\/strong><\/em><\/p>\n<p>S\u00e9rie Ponto Cego \u2014 Elei\u00e7\u00f5es 2026<\/p>\n<p>#PontoCego<br \/>\n#PontoCego2026<br \/>\n#Consci\u00eancia<br \/>\n#Percep\u00e7\u00e3o<br \/>\n#Cidadania<br \/>\n#Democracia<br \/>\n#PensamentoCr\u00edtico<br \/>\n#Educa\u00e7\u00e3oC\u00edvica<br \/>\n#Reflex\u00e3o<br \/>\n#Brasil<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O eleitor evolutivo Por Paulo Laurentino E se o marketing estiver ficando cada vez melhor em compreender um eleitor 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