{"id":5981,"date":"2014-07-27T09:23:48","date_gmt":"2014-07-27T12:23:48","guid":{"rendered":"http:\/\/namiradalei.com.br\/barradobugres\/?p=5981"},"modified":"2014-07-27T14:53:19","modified_gmt":"2014-07-27T17:53:19","slug":"a-cultura-do-jeitinho-pesquisa-revela-que-82-acham-que-maioria-pretende-tirar-vantagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/namiradalei.com.br\/barradobugres\/a-cultura-do-jeitinho-pesquisa-revela-que-82-acham-que-maioria-pretende-tirar-vantagem\/","title":{"rendered":"A cultura do \u201cjeitinho\u201d: pesquisa revela que 82% acham que maioria pretende tirar vantagem"},"content":{"rendered":"<p>O tema \u00e9 de fundamental import\u00e2ncia para todos n\u00f3s. A velha e conhecida \u201cmalandragem\u201d dos brasileiros. Tenho explorado o assunto aqui \u00e0 exaust\u00e3o, inclusive criando a s\u00e9rie \u201cBrasileiro \u00e9 ot\u00e1rio?\u201d. O fato \u00e9 que temos \u201cmalandros\u201d demais para ot\u00e1rios de menos, o que acaba criando um pa\u00eds de ot\u00e1rios. A malandragem generalizada serve apenas para criar um caos social.<\/p>\n<p>Uma das grandes vantagens do capitalismo liberal \u00e9 sua impessoalidade. Os rom\u00e2nticos lamentam a perda das nobres inten\u00e7\u00f5es, mas ignoram que \u00e9 justamente por esse processo impessoal que o capitalismo funciona t\u00e3o bem. A alternativa, como sabia Hayek, \u00e9 depender de la\u00e7os tribais, do relacionamento pessoal, que cria o patrimonialismo (a \u201ccoisa p\u00fablica\u201d vista como \u201ccosa nostra\u201d).<\/p>\n<p>Imaginem o mercado de cr\u00e9dito, por exemplo, crucial para dar dinamismo \u00e0 economia e fazer o elo entre poupadores e investidores. Como seria ele se dependesse apenas da confian\u00e7a de conhecidos? Voc\u00ea, leitor, emprestaria dinheiro para seus familiares? Talvez, e j\u00e1 h\u00e1 riscos nisso, como estamos cansados de ver por a\u00ed. Mas ser\u00e1 que emprestaria para o vizinho? E para um completo estranho na rua? N\u00e3o? Pois \u00e9. Mas os bancos emprestam\u2026<\/p>\n<p>Para esse mecanismo funcionar direito, \u00e9 preciso ter confian\u00e7a. N\u00e3o no pr\u00f3ximo, mas no sistema, nas regras do jogo, no imp\u00e9rio das leis, na garantia dos contratos. \u00c9 assim que se constr\u00f3i uma \u201csociedade de confian\u00e7a\u201d, para usar a express\u00e3o que d\u00e1 nome ao \u00f3timo livro do diplomata franc\u00eas Alain Peirefitte. Confiar nas regras impessoais do jogo reduz muito os custos de transa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"ngg_displayed_gallery mceItem\" src=\"http:\/\/namiradalei.com.br\/barradobugres\/nextgen-attach_to_post\/preview\/id--6027\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p>Tudo isso foi uma introdu\u00e7\u00e3o para lamentar a recente\u00a0<a href=\"http:\/\/oglobo.globo.com\/pais\/jeitinho-brasileiro-82-acham-que-maioria-pretende-tirar-vantagem-diz-pesquisa-11842428\" target=\"_blank\">pesquisa<\/a>\u00a0que apenas refor\u00e7a o que j\u00e1 sab\u00edamos: os brasileiros desconfiam de todos:<\/p>\n<p>Vivemos em uma sociedade dividida entre malandros e man\u00e9s? O cultuado \u201cjeitinho brasileiro\u201d costuma ser usado para burlar regras, furar filas, andar pelo acostamento e sempre se sair melhor do que a pessoa ao lado. Mesmo quando ela \u00e9 da sua fam\u00edlia, seu amigo, vizinho ou colega de trabalho. \u00c9 o que mostra pesquisa da Confedera\u00e7\u00e3o Nacional da Ind\u00fastria (CNI), feita entre 17 e 21 de setembro de 2012, e completada com dados somente divulgados no in\u00edcio deste ano. A percep\u00e7\u00e3o dos entrevistados em rela\u00e7\u00e3o a forma de agir do brasileiro reflete o jeito com que tratamos as pessoas, mesmo as mais pr\u00f3ximas do nosso c\u00edrculo afetivo: 82% acham que a maioria age querendo tirar vantagem, enquanto s\u00f3 16% dos entrevistados acham que as pessoas agem de maneira correta. Embora os dados tenham sido coletados no ano retrasado, a coordena\u00e7\u00e3o da pesquisa diz que um ou dois anos n\u00e3o interferem na altera\u00e7\u00e3o do n\u00edvel de percep\u00e7\u00e3o das pessoas.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 certas imagens sobre o comportamento do brasileiro que permeiam as percep\u00e7\u00f5es das pessoas nas suas rela\u00e7\u00f5es sociais. A ideia de que o brasileiro sempre burla normas e determina\u00e7\u00f5es para obter o que almeja \u2013 e essa \u00e9 uma defini\u00e7\u00e3o do jeitinho \u2013 \u00e9 recorrente. Para a grande maioria dos brasileiros, a busca de atalhos, solu\u00e7\u00f5es facilitadas ou vantagens fazem parte do cotidiano das pessoas \u2013 explica Rachel Meneguello, cientista pol\u00edtica da Universidade de Campinas (Unicamp).<\/p>\n<p>A maioria confia na fam\u00edlia, mas n\u00e3o nos outros, inclusive nos \u201camigos\u201d. \u00c9 o quadro de uma sociedade com desconfian\u00e7a generalizada. A cultura do \u201cjeitinho\u201d, em simbiose com institui\u00e7\u00f5es capengas, acaba criando esse clima. O combate deve ser tanto no plano cultural como institucional. Uma coisa depende da outra.<\/p>\n<p>Regras mais claras, ison\u00f4micas, conhecidas\u00a0<em>ex ante<\/em>\u00a0e aplicadas com rigor s\u00e3o fundamentais. Puni\u00e7\u00e3o para quem burlar tais regras tamb\u00e9m. E, no \u00e2mbito cultural, \u00e9 preciso convencer cada vez mais gente de que ser confi\u00e1vel e decente \u00e9 bom, que n\u00e3o \u00e9 coisa de \u201cot\u00e1rio\u201d, pois ot\u00e1rios mesmo s\u00e3o os que se acham muito malandros e criam uma sociedade impratic\u00e1vel e invi\u00e1vel.<\/p>\n<p>Quem costuma viajar para a Europa ou os Estados Unidos (principalmente o \u00faltimo), est\u00e1 cansado de saber como faz diferen\u00e7a uma sociedade de confian\u00e7a. Voc\u00ea vai a uma loja e diz que o produto veio ruim, e eles trocam na hora! A presun\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>bona fide\u00a0<\/em>\u00e9 imediata. J\u00e1 no Brasil, todos desconfiam de m\u00e1 f\u00e9, de tentativa de golpe, de malandragem. Quem sai perdendo com isso? Todos n\u00f3s, claro!<\/p>\n<p>Abandonar os preconceitos tribais e mergulhar no capitalismo liberal \u00e9 o grande passo rumo ao progresso dos povos. Basta ver o atraso africano, em boa parte devido a esta mentalidade tribal t\u00e3o predominante (cada tribo enxerga no aparato estatal uma oportunidade para se dar bem \u00e0 custa das outras tribos, algo n\u00e3o muito diferente do patrimonialismo dos ib\u00e9ricos importado pelo Brasil).<\/p>\n<p>A sa\u00edda \u00e9 o capitalismo liberal sob o imp\u00e9rio das leis. N\u00e3o h\u00e1 boa alternativa a isso, por mais que os ing\u00eanuos e rom\u00e2nticos acreditem que basta pregar mais altru\u00edsmo e abnega\u00e7\u00e3o a todos. \u00c9 do<em>nosso interesse\u00a0<\/em>criar uma sociedade mais confi\u00e1vel, pois ela funciona muito melhor para a imensa maioria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Rodrigo Constantino<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O tema \u00e9 de fundamental import\u00e2ncia para todos n\u00f3s. A velha e conhecida \u201cmalandragem\u201d dos brasileiros. 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