SER OU TER?
O melhor jurista é aquele que primeiro aprende a prender a si mesmo.
A verdadeira liberdade começa na disciplina.
Vivemos uma época curiosa.
O crime virou estética.
A rebeldia virou produto.
A transgressão virou entretenimento.
Enquanto isso, a realidade continua cobrando aluguel, energia, comida e boletos.
É possível passar anos dizendo:
“Sou contra o capitalismo.”
Até chegar o dia em que você precisa pagar as próprias contas.
Nesse instante, a teoria encontra a realidade.
A opção pelo crime quase sempre nasce do desejo de ter.
Mas antes do ter existe o ser.
Quem constrói o ser aprende a produzir.
Quem aprende a produzir conquista autonomia.
Quem conquista autonomia deixa de depender.
Não há vergonha em receber ajuda quando ela serve como ponto de partida.
O problema começa quando o auxílio deixa de ser ponte e passa a ser moradia.
Toda bolsa deveria ser uma escada.
Nunca uma cadeira.
Porque independência não é receber.
É conseguir caminhar sem precisar continuar recebendo.
O curioso é que muitos acabam descobrindo isso apenas quando empreendem.
Descobrem o peso dos impostos.
O risco.
A folha de pagamento.
O cliente que não aparece.
O investimento.
A responsabilidade.
E então percebem que aquele empreendedor que antes condenavam carregava um peso que nunca haviam sentido.
Existe um ponto cego nisso tudo.
A liberdade que exige menos esforço costuma terminar em dependência.
A liberdade que exige responsabilidade costuma terminar em autonomia.
Toda sociedade precisa escolher qual delas deseja incentivar.
Porque viver eternamente sob tutela pode parecer conforto.
Mas conforto permanente não produz liberdade.
Produz prisão.
E a prisão mais difícil de perceber é justamente aquela em que alguém paga as contas enquanto decide o tamanho da sua liberdade.
Por Paulo Laurentino
